Quando se fala em tipos de dengue, duas ideias costumam se misturar: os quatro sorotipos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4) e a classificação clínica usada para decidir a conduta (dengue sem sinais de alarme, com sinais de alarme e dengue grave). Neste guia, organizado a partir do manual do Ministério da Saúde (6ª edição, 2024) e das orientações da OMS/OPAS, você vai entender as duas coisas e, principalmente, como elas se conectam ao estadiamento em grupos A, B, C e D, que é o que mais cai na prova e mais importa no plantão.
Resumo em uma frase: o sorotipo explica por que alguém pode ter dengue mais de uma vez; a classificação clínica diz o que fazer com o paciente agora.
1. Os quatro sorotipos do vírus da dengue
A dengue é causada por um arbovírus do gênero Orthoflavivirus (família Flaviviridae), transmitido principalmente pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti. Existem quatro sorotipos geneticamente distintos:
- DENV-1
- DENV-2
- DENV-3
- DENV-4
Por que é possível ter dengue até quatro vezes?
A infecção por um sorotipo gera imunidade duradoura contra aquele mesmo sorotipo, mas a proteção contra os outros três é apenas parcial e temporária (alguns meses). Por isso, uma pessoa pode ter dengue até quatro vezes ao longo da vida.
Segunda infecção: maior risco de gravidade
Uma infecção secundária por sorotipo diferente está associada a maior risco de dengue grave. A explicação mais aceita é o fenômeno de potencialização dependente de anticorpos: anticorpos da primeira infecção se ligam ao novo vírus sem neutralizá-lo e facilitam sua entrada em células do sistema imune. Na prática, isso reforça a importância de monitorar a reintrodução ou troca do sorotipo predominante em uma região, que costuma preceder epidemias.
2. A doença em três fases
Antes da classificação, é essencial entender a evolução natural. A dengue é uma doença dinâmica: um paciente pode mudar de grupo em horas.
Fase febril
Febre alta (geralmente 39 °C a 40 °C) de início súbito, com duração de 2 a 7 dias, acompanhada de cefaleia, dor retro-orbital, mialgia, artralgia, prostração e, com frequência, exantema. Nesta fase, a maioria dos pacientes melhora sem complicações.
Fase crítica
Começa na defervescência (queda da febre), em geral entre o 3º e o 7º dia. É o momento de maior risco: ocorre aumento da permeabilidade capilar e extravasamento plasmático, que pode levar a hemoconcentração, derrames cavitários e choque. É aqui que surgem os sinais de alarme.
Armadilha clássica: a melhora da febre não significa melhora do paciente. É justamente quando o risco de choque aumenta.
Fase de recuperação
Reabsorção gradual do líquido extravasado, melhora do estado geral e do apetite. Podem surgir exantema, prurido e bradicardia. Atenção à hipervolemia em quem recebeu muito volume.
3. Classificação clínica: os "tipos" que definem a conduta
O Ministério da Saúde utiliza a classificação da OMS, que substituiu os antigos termos "dengue clássica" e "febre hemorrágica da dengue". Hoje, os casos são classificados em:
Dengue sem sinais de alarme
Caso suspeito: pessoa que vive ou esteve em área com transmissão, com febre de 2 a 7 dias e pelo menos duas das seguintes manifestações:
- Náuseas ou vômitos
- Exantema
- Mialgia ou artralgia
- Cefaleia ou dor retro-orbital
- Petéquias ou prova do laço positiva
- Leucopenia
Dengue com sinais de alarme
Os sinais de alarme indicam extravasamento plasmático e risco de evolução para choque. Memorize-os:
- Dor abdominal intensa (referida ou à palpação) e contínua
- Vômitos persistentes
- Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural ou pericárdico)
- Hipotensão postural e/ou lipotimia
- Hepatomegalia maior que 2 cm abaixo do rebordo costal
- Sangramento de mucosa
- Letargia e/ou irritabilidade
- Aumento progressivo do hematócrito
Dengue grave
Caracteriza-se por pelo menos um dos seguintes:
- Choque ou desconforto respiratório por extravasamento plasmático grave: pulso rápido e fraco, pressão arterial convergente (diferencial ≤ 20 mmHg), extremidades frias, tempo de enchimento capilar > 2 segundos, hipotensão (sinal tardio).
- Sangramento grave, conforme avaliação clínica (hematêmese, melena, sangramento do sistema nervoso central).
- Comprometimento grave de órgãos: hepatite (AST/ALT > 1.000), encefalite, miocardite, entre outros.
4. Estadiamento: grupos A, B, C e D
Todo caso suspeito deve ser estadiado para definir onde e como será tratado. A lógica é uma sequência de perguntas:
- Há sinais de choque ou dengue grave? Se sim, Grupo D.
- Não, mas há sinais de alarme? Se sim, Grupo C.
- Não, mas há sangramento de pele espontâneo, prova do laço positiva, condição clínica especial, risco social ou comorbidade? Se sim, Grupo B.
- Nenhuma das anteriores: Grupo A.
Grupo A (verde)
- Quem: sem sinais de alarme, sem condição especial, sem risco social, sem comorbidades, sem sangramento espontâneo e com prova do laço negativa.
- Onde: tratamento ambulatorial.
- Exames: a critério médico.
- Hidratação oral (adulto): cerca de 60 mL/kg/dia, sendo 1/3 com soro de reidratação oral e 2/3 com outros líquidos (água, sucos, chás), com volume maior nas primeiras horas.
- Orientação: retorno imediato se houver sinais de alarme e reavaliação no dia da melhora da febre ou, se não houver defervescência, até o 5º dia.
Grupo B (amarelo)
- Quem: sem sinais de alarme, mas com sangramento de pele espontâneo (petéquias) ou prova do laço positiva, ou com condição clínica especial (lactentes menores de 2 anos, gestantes, adultos acima de 65 anos), risco social ou comorbidades (hipertensão, diabetes, DPOC, doença renal crônica, doenças hematológicas, hepatopatias, entre outras).
- Onde: em unidade com leito de observação até o resultado dos exames.
- Exames: hemograma obrigatório.
- Conduta: hidratação oral enquanto aguarda; se o hematócrito estiver normal, seguir como Grupo A com reavaliação próxima; se houver hemoconcentração ou surgirem sinais de alarme, conduzir como Grupo C.
Grupo C (laranja)
- Quem: presença de qualquer sinal de alarme.
- Onde: internação hospitalar.
- Hidratação venosa imediata (fase de expansão): 10 mL/kg de soro fisiológico 0,9% na primeira hora, podendo ser repetida até 3 vezes, com reavaliação clínica e do hematócrito.
- Se houver melhora: fase de manutenção com 25 mL/kg em 6 horas e, mantida a melhora, 25 mL/kg em 8 horas.
- Se não houver melhora após as expansões: conduzir como Grupo D.
- Exames: hemograma, albumina, transaminases e exames de imagem (radiografia de tórax, ultrassonografia) conforme o caso.
Grupo D (vermelho)
- Quem: choque, desconforto respiratório, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos.
- Onde: unidade de terapia intensiva (ou início imediato da reanimação onde o paciente estiver).
- Expansão rápida: 20 mL/kg de soro fisiológico em 20 minutos, podendo repetir até 3 vezes.
- Reavaliação a cada etapa: se o hematócrito estiver em ascensão, considerar albumina; se estiver em queda com instabilidade, investigar hemorragia e considerar transfusão.
- Após melhora, seguir a hidratação do Grupo C.
5. Como fazer a prova do laço
- Calcular a pressão arterial média: (PAS + PAD) ÷ 2.
- Insuflar o manguito até esse valor e manter por 5 minutos em adultos (3 minutos em crianças).
- Desenhar um quadrado de 2,5 cm × 2,5 cm no antebraço, na área de maior concentração de petéquias.
- Positiva: 20 ou mais petéquias em adultos ou 10 ou mais em crianças.
Se já houver petéquias espontâneas, a prova do laço não é necessária: o paciente já é, no mínimo, Grupo B.
6. Diagnóstico laboratorial
O diagnóstico é clínico-epidemiológico, mas a confirmação depende do tempo de doença:
- Até o 5º dia de sintomas: pesquisa do antígeno NS1, RT-PCR ou isolamento viral.
- A partir do 6º dia: sorologia IgM (ELISA).
- Hemograma: leucopenia e plaquetopenia são comuns; o hematócrito seriado é o principal marcador de extravasamento plasmático.
A dengue é de notificação compulsória; óbitos suspeitos devem ser notificados de forma imediata.
7. O que não fazer
- Não usar ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida etc.): aumentam o risco de sangramento. Para febre e dor, usar dipirona ou paracetamol.
- Não usar corticoides para tratar dengue.
- Não esperar o resultado de exames para iniciar a hidratação nos grupos C e D.
- Não liberar o paciente sem orientar sobre os sinais de alarme.
8. Prevenção e vacina
A principal forma de prevenção continua sendo o controle do Aedes aegypti: eliminar água parada e criadouros. O SUS incorporou a vacina contra a dengue (Qdenga, de duas doses) para faixas etárias e regiões prioritárias, que vêm sendo ampliadas; consulte sempre o calendário vigente do Programa Nacional de Imunizações.
9. Revisão rápida para a prova
- 4 sorotipos (DENV-1 a 4); reinfecção por sorotipo diferente aumenta o risco de gravidade.
- Fase crítica começa na defervescência (3º ao 7º dia).
- Classificação: sem sinais de alarme, com sinais de alarme e grave.
- A: ambulatorial, 60 mL/kg/dia via oral. B: hemograma obrigatório. C: 10 mL/kg/h de SF 0,9%, até 3 vezes, e internação. D: 20 mL/kg em 20 min, até 3 vezes, e UTI.
- Prova do laço positiva: ≥ 20 petéquias em adultos e ≥ 10 em crianças.
- NS1/RT-PCR até o 5º dia; IgM a partir do 6º.
- Nada de AAS ou AINE.
Referências
Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico – adulto e criança. 6ª ed. Brasília, 2024.
Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico – página oficial da publicação.
Ministério da Saúde. Dengue – Saúde de A a Z.
Organização Mundial da Saúde. Dengue and severe dengue (fact sheet).

